Eu, tal como outros, quando presencio ou ouço relatos de qualquer acto nobre, sinto-me exaltado pois parece que cresço perante a grandeza de alguns gestos humanos, enquanto que, perante comportamentos vis e desprezíveis só me invade um profundo desgosto por também ser humano. Vem este preâmbulo a propósito do momento actual, em que deprime assistir à debandada de tantos professores abandonando antes do tempo o barco da educação que muito prezavam e que agora vêem afundar-se sem perspectivaram possibilidade de salvação. E penso em gente que deu o melhor de si à profissão, pessoas competentes que não compraram diplomas em universidades que, por óbvia falta de qualidade, acabariam encerradas (se calhar pela mão de alguns que ali se haviam abastecido), profissionais que nunca andaram para aí a assinar parolos projectos de habitações que envergonhariam o mais pífio dos construtores civis.
Quem por cá manda, andou em excursões pela Finlândia para depois importar do Chile um modelo de avaliação de professores terceiro-mundista que pretende por força impor aos aborígenes. Simultaneamente os mandantes nas suas campanhas de venda da sua pacóvia modernização do sistema perdem-se em acções de propaganda com a entrega pelas escolas de gadgets de pouca ou nenhuma valia pedagógica. Agora, quando o descontentamento dos professores desagua nas ruas, os governantes fazem-se cegos e moucos e, quando interpelados, balbuciam insultos e debitam sem vergonha um rol de mentiras. Diz um infeliz secretário de Estado que os professores não têm outro remédio se não aceitarem sem discussão o que os iluminados chefes lhes ditam, tal como o povo deve pagar sem tugir nem mugir os impostos com que o emagrecem. Quem se opuser às reformas do sistema será trucidado, ameaça outro secretário! Quem manda são eles e pronto, é assim a bizarra democracia que nos coube e, assim, aos professores que não acatarem as ordens, duras penas lhes comina a sinistra da Educação (aquela senhora relapsa no incumprimento da lei que viu já várias decisões suas derrotadas em tribunal para além de ter sido objecto de censura por parte do provedor de Justiça). Claro que o modelo de avaliação em causa é apenas um dos factos que afectam o ensino. Como escreve Santana Castilho «O problema é a série enorme de políticas erradas e respectivos suportes legais que têm escravizado os professores e tornado irrespirável a atmosfera da escola pública, a saber, entre outras. o estatuto da carreira, que a empobreceu, desfigurou, estrangulou e dividiu em castas; o quadro definidor dos apoios especializados aos alunos, que deixou desumanamente de fora milhares de crianças anteriormente assistidas; a generalização do conceito de escola a tempo inteiro, que sequestra os jovens na escola mais tempo que os pais passam na fábrica, explorando demagogicamente o empobrecimento dos progenitores, obrigados por essa via a entregar os filhos ao Estado; o estatuto do aluno, instrumento dissimulado e pérfido da progressão automática, à custa do esmagamento da dignidade intelectual e profissional dos professores e da hipoteca do futuro dos jovens no altar dos resultados forjados; o quadro legal da habilitações profissionais para a docência, precursor do professor generalista para os primeiros 6 anos do básico e recuperador de conceitos curriculares retrógrados e desintegradores do profissionalismo docente; e o regime de gestão e autonomia das escolas, onde pontifica uma nova bota cardada de Kapos, que escolhem os conselheiros pedagógicos e os coordenadores de departamento, em nome da autonomia que se esmaga».
E não quero acabar este comentário sobre a actual situação dos professores, sem mais uma citação: "Nada deve ser nem mais importante nem mais desejável do que preservar a boa disposição dos professores.É nisto que reside o maior segredo do bom funcionamento das escolas". Ou ainda: "O reitor terá o cuidado de estimular o entusiasmo dos professores com diligência e com religiosa afeição. Evite que eles sejam demasiado sobrecarregados pelos trabalhos domésticos". Claro que as palavras que expressam preocupação com a manutenção do entusiasmo dos professores, nada têm a ver com os professores deste sítio chamado Portugal, e muito menos com os da Rocha. São apenas um mero extracto da obra de pedagogia dos Jesuítas do século XVI, Ratio Studorium. A nós apenas nos cabe agora, quanto mais não seja por uma questão de dignidade, dizermos não ao que nos querem impor. Lembremos que, como dizia Ortega y Gasset, pensar é dizer não. O sim é o gesto de quem adormece deixar cair a cabeça. Não adormeçamos então, companheiros!