domingo, 16 de novembro de 2008

Eu, tal como outros, quando presencio ou ouço relatos de qualquer acto nobre, sinto-me exaltado pois parece que cresço perante a grandeza de alguns gestos humanos, enquanto que, perante comportamentos vis e desprezíveis só me invade um profundo desgosto por também ser humano. Vem este preâmbulo a propósito do momento actual, em que deprime assistir à debandada de tantos professores abandonando antes do tempo o barco da educação que muito prezavam e que agora vêem afundar-se sem perspectivaram possibilidade de salvação. E penso em gente que deu o melhor de si à profissão, pessoas competentes que não compraram diplomas em universidades que, por óbvia falta de qualidade, acabariam encerradas (se calhar pela mão de alguns que ali se haviam abastecido), profissionais que nunca andaram para aí a assinar parolos projectos de habitações que envergonhariam o mais pífio dos construtores civis.
Quem por cá manda, andou em excursões pela Finlândia para depois importar do Chile um modelo de avaliação de professores terceiro-mundista que pretende por força impor aos aborígenes. Simultaneamente os mandantes nas suas campanhas de venda da sua pacóvia modernização do sistema perdem-se em acções de propaganda com a entrega pelas escolas de gadgets de pouca ou nenhuma valia pedagógica. Agora, quando o descontentamento dos professores desagua nas ruas, os governantes fazem-se cegos e moucos e, quando interpelados, balbuciam insultos e debitam sem vergonha um rol de mentiras. Diz um infeliz secretário de Estado que os professores não têm outro remédio se não aceitarem sem discussão o que os iluminados chefes lhes ditam, tal como o povo deve pagar sem tugir nem mugir os impostos com que o emagrecem. Quem se opuser às reformas do sistema será trucidado, ameaça outro secretário! Quem manda são eles e pronto, é assim a bizarra democracia que nos coube e, assim, aos professores que não acatarem as ordens, duras penas lhes comina a sinistra da Educação (aquela senhora relapsa no incumprimento da lei que viu já várias decisões suas derrotadas em tribunal para além de ter sido objecto de censura por parte do provedor de Justiça). Claro que o modelo de avaliação em causa é apenas um dos factos que afectam o ensino. Como escreve Santana Castilho «O problema é a série enorme de políticas erradas e respectivos suportes legais que têm escravizado os professores e tornado irrespirável a atmosfera da escola pública, a saber, entre outras. o estatuto da carreira, que a empobreceu, desfigurou, estrangulou e dividiu em castas; o quadro definidor dos apoios especializados aos alunos, que deixou desumanamente de fora milhares de crianças anteriormente assistidas; a generalização do conceito de escola a tempo inteiro, que sequestra os jovens na escola mais tempo que os pais passam na fábrica, explorando demagogicamente o empobrecimento dos progenitores, obrigados por essa via a entregar os filhos ao Estado; o estatuto do aluno, instrumento dissimulado e pérfido da progressão automática, à custa do esmagamento da dignidade intelectual e profissional dos professores e da hipoteca do futuro dos jovens no altar dos resultados forjados; o quadro legal da habilitações profissionais para a docência, precursor do professor generalista para os primeiros 6 anos do básico e recuperador de conceitos curriculares retrógrados e desintegradores do profissionalismo docente; e o regime de gestão e autonomia das escolas, onde pontifica uma nova bota cardada de Kapos, que escolhem os conselheiros pedagógicos e os coordenadores de departamento, em nome da autonomia que se esmaga».
E não quero acabar este comentário sobre a actual situação dos professores, sem mais uma citação: "Nada deve ser nem mais importante nem mais desejável do que preservar a boa disposição dos professores.É nisto que reside o maior segredo do bom funcionamento das escolas". Ou ainda: "O reitor terá o cuidado de estimular o entusiasmo dos professores com diligência e com religiosa afeição. Evite que eles sejam demasiado sobrecarregados pelos trabalhos domésticos". Claro que as palavras que expressam preocupação com a manutenção do entusiasmo dos professores, nada têm a ver com os professores deste sítio chamado Portugal, e muito menos com os da Rocha. São apenas um mero extracto da obra de pedagogia dos Jesuítas do século XVI, Ratio Studorium. A nós apenas nos cabe agora, quanto mais não seja por uma questão de dignidade, dizermos não ao que nos querem impor. Lembremos que, como dizia Ortega y Gasset, pensar é dizer não. O sim é o gesto de quem adormece deixar cair a cabeça. Não adormeçamos então, companheiros!

domingo, 9 de novembro de 2008

A manifestação dos professores do dia 8 de Novembro, que segundo a ministra da Educação lhe merecia apenas um sorriso, teve direito também, da parte da mesma, a alguns insultos soezes. Segundo a senhora, os cento e vinte mil professores que desfilaram pelas ruas de Lisboa não passavam de robertos, manipulados pelas mãos dos políticos da oposição e simultaneamente activistas da intimidação ao governo e aos outros professores. Mentecaptos e chantagistas, eis o que os professores seriam nas palavras lançadas à comunicação social, quer pelo sorriso a escorrer frustrações pelas fissuras da boca da ministra, quer pelo discurso acompanhado de meneios afectados do caixeiro-viajante que para já governa cá o sítio. Enquanto isso, pessoas como Ana Benavente, antiga secretária de Estado da Educação do governo de Guterres, criticando a actual política "profundamente errada" para a Educação, considera que "Nas escolas tudo se tornou mais importante que ensinar". "Se tantos estão na rua, terão as suas razões", comentou também o vice-presidente da Assembleia da República, Manuel Alegre, aconselhando ainda o governo a ouvir a "voz da rua" e mostrando-se particularmente chocado com a ministra da Educação pela sua intervenção reveladora de inflexibilidade e de "pouca cultura democrática" ao referir-se à manifestação como um acto de "intimidação"."Quando uma classe profissional contesta uma política com esta dimensão, não pode um governante dizer que está certo contra o mundo", acrescentou o deputado.
Depois de uma manifestação com tal dimensão, por razões de coerência e de ordem pedagógica, cabe agora aos professores que ainda o não fizeram exigir sem receios e desde já a total suspensão deste modelo de avaliação gerador de balbúrdia nos estabelecimentos de ensino.E a propósito do modo como os professores têm vindo a ser tratados, tendo presente a voz do Povo quando diz que "quem não se sente não é filho de boa gente", reafirmemos nós, professores da Rocha Peixoto, que somos filhos de boas famílias!

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

A APA, depois de, enquanto blog, ter entrado em coma, arrastando-se de quando em quando por um placard da escola, está de volta, para ser mais uma voz a denunciar todas as medidas que em catadupa se abatem sobre os professores visando apenas a destituição de todo o seu poder e o avanço decidido para a banalização de todo o estudo, para a transformação da aprendizagem em divertimento fútil, para a progressiva infantilização, para a desvalorização do trabalho, para a iliteracia,enfim para a completa imbecilidade. Não param as investidas do ministério dito da educação contra a classe docente, tentando fomentar a divisão no seu seio, processo iniciado com a alteração do Estatuto da Carreira Docente e contra a qual a FENPROF se bateu...Escrevia então o Professor Santana Castilho: "O nosso sistema de ensino é um somatório sem nexo de sucessivas reformas casuísticas, desgarradas, que o tornaram uma fraude".
Na situação actual, quando o ministério pretende avançar sozinho com o seu modelo de "avaliação" - apesar de ter assinado um memorando de entendimento com a Plataforma Sindical dos Professores onde se previa que os Sindicatos estariam presentes, quer no acompanhamento do modelo, quer na comissão paritária destinada a preparar negociações para a rectificação do referido modelo -foi apresentado, pela grande maioria dos professores da Rocha Peixoto, um abaixo assinado endereçado à Senhora Ministra reclamando a suspensão da avaliação,baseada nesse seu modelo disparatado que, como dizia o já citado Professor Santana Castilho no Público de 30 de Outubro, «um coio de incompetentes quer impor aos professores». Efectivamente urge que este modelo de "avaliação" seja firmemente rejeitado pelos professores. A vociferação da Senhora Ministra ameaçando os professores que recusem tal avaliação de não progredirem na carreira (o que só não afectaria aqueles que já não dispõem de espaço nem tempo para qualquer progressão) não amedronta todos os professores (ouço a voz de Fassbinder a murmurar lá longe: "O medo come a alma!") e assim muitas escolas no seu todo já decidiram suspender o actual processo de avaliação, conquanto algumas outras, geridas por elementos mais papistas que o papa, se tenham esmerado na implementação do desgraçado modelo.
Claro que, por mais voltas que o processo dê, este ministério tentará por todos os meios levar avante as suas principais medidas visando obter o "sucesso" administrativo de todos os alunos e, simultaneamente, tecer a rede de malha fina que só deixe progredir na carreira docente um número restrito de professores, obviamente os mais bem comportados, ganhando um corpo docente dócil e barato. Por isso meus amigos, sejamos optimistas e gozemos o dia de hoje. Amanhã há-de ser pior!